Quem foi Bessie Stringfield

Nascida na Jamaica em 1911 e criada nos Estados Unidos, Bessie Stringfield se tornou uma lenda pouco conhecida do motociclismo: a primeira mulher negra a cruzar os EUA sozinha de moto — numa época em que isso era quase impensável.

A moto que veio de um sonho

Quando criança, Bessie tinha sonhos recorrentes de estar caindo no vazio. Na adolescência, o sonho mudou: ela se via pilotando uma moto, sentindo uma liberdade que nunca tinha sentido acordada. Pediu à mãe adotiva uma motocicleta de verdade — e ganhou.

Sem nenhuma aula

Aos 16 anos, subiu numa Indian Scout 1928 sem nunca ter pilotado antes. Não teve aula, não teve instrutor — simplesmente subiu e saiu andando. Ela dizia que foi Deus quem a ensinou.

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Oito vezes cruzando os EUA sozinha

Bessie cruzou os Estados Unidos sozinha pelo menos oito vezes, além de rodar pelo Brasil, Europa e Haiti — tudo isso décadas antes da Lei dos Direitos Civis, no auge da segregação racial no sul do país.

Dormindo em cima da própria moto

Como mulher negra viajando sozinha pelo sul segregado, Bessie muitas vezes não conseguia se hospedar em hotéis. Quando não encontrava famílias negras dispostas a recebê-la, dormia em cima da própria moto, estacionada em postos de gasolina.

Correio do Exército na Segunda Guerra

Durante a Segunda Guerra Mundial, Bessie foi uma das poucas mulheres a atuar como correio civil motorizado do Exército americano, transportando documentos confidenciais entre bases militares pilotando sua Harley-Davidson Knucklehead azul.

Acrobacias no Muro da Morte

Bessie também se apresentava em carnavais, pilotando em alta velocidade dentro do “Muro da Morte” — um cilindro de madeira onde a moto roda praticamente na horizontal, presa só pela força centrífuga.

A polícia tentou impedi-la

Ao tentar tirar habilitação em Miami, a polícia deixou claro que não queria uma mulher negra pilotando moto pela cidade. Bessie não recuou: exigiu um teste direto com o capitão responsável pela unidade de motos — e provou que sabia pilotar melhor que a maioria.

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27 Harley-Davidsons

Ao longo de mais de 60 anos pilotando, Bessie possuiu 27 motocicletas — a maioria Harley-Davidsons. Rodou mais de 1,6 milhão de quilômetros na vida, sem nunca desistir de pilotar.

O legado que continua

Bessie morreu em 1993, aos 82 anos. Hoje tem um prêmio da American Motorcyclist Association com seu nome, está no Hall da Fama do Motociclismo, e em setembro de 2025 o próprio Museu Harley-Davidson abriu uma exposição dedicada só à sua história.

Seis casamentos, uma perda profunda

Bessie se casou e se divorciou seis vezes ao longo da vida. Teve três filhos com o primeiro marido — mas todos morreram ainda crianças. Depois disso, não teve mais filhos. Manteve o sobrenome do terceiro marido, Arthur Stringfield, a pedido dele: ele tinha certeza de que ela ficaria famosa.

Sem herdeiros de sangue

Quando morreu, em 1993, o espólio de Bessie foi deixado pra Robert Scott Thomas — não um parente, mas o filho da família pra quem ela trabalhou como empregada doméstica anos antes. Não existe descendência direta carregando seu sobrenome: o legado dela sobrevive por outros caminhos.

Livros, documentário e até a HBO

Sua história virou biografia em “Hear Me Roar” (1996, editora Crown/Random House) e ganhou o documentário premiado “Motorcycle Queen of Miami”. O New York Times publicou um obituário especial dela só em 2018 — 25 anos depois de sua morte —, e a HBO fez uma homenagem a ela na série “Lovecraft Country”, em 2020.

Uma liberdade que ninguém tirou dela

Numa época em que praticamente tudo dizia que ela não podia, Bessie Stringfield simplesmente pilotou. Sua história prova que a estrada sempre foi — e continua sendo — de quem tem coragem de pegar a direção.