Um casal, uma moto, 193 países

A maior viagem de Harley Davidson da história

Peter e Kay Forwood são um casal australiano de Townsville que fez a maior viagem de Harley-Davidson já registrada: 15 anos na estrada, mais de 610 mil km e os 193 países reconhecidos pela ONU (Organização das Nações Unidas), todos na mesma moto. Rodaram no ponto mais baixo do planeta e a 5.300 metros de altitude, entraram na Coreia do Norte sob escolta militar e atravessaram o Congo. E tudo começou dentro de um ônibus lotado.

A ideia nasceu num ônibus

A maior viagem de Harley Davidson da história

Em 1992, numa viagem em família a Sumatra, na Indonésia, o casal se cansou de esperar ônibus e andar espremido dentro deles. Carro alugado era caro e deixava os dois longe de tudo. A conclusão veio no meio do calor: moto resolveria os dois problemas de uma vez — liberdade para parar onde quisessem e contato direto com o lugar, com toda a poeira e o cheiro dos lugares, conexão. Faltava a moto. E Peter já sabia qual queria.

A Harley dos 40 anos

Peter já tinha tido uma Harley e vendeu quando criar os filhos apertou o orçamento. Aos 40, decidiu que era hora de ter outra e comprou uma Electra Glide Classic 1994 zero km, de 1.340 cilindradas — a moto de asfalto que qualquer um encontrava na concessionária, sem preparação de rali. Custou A$ 24 mil (dólares australianos) e o banco só liberou aceitando garantia. Quando perguntavam por que uma Harley, ele respondia: “se você precisa perguntar, não está pronto para a sua primeira Harley”.

3 de fevereiro de 1996

A maior viagem de Harley Davidson da história

Peter deu a partida em Townsville, no nordeste da Austrália, com uma meta simbólica: chegar a Milwaukee em 2003, nos 100 anos da Harley-Davidson, depois de dar a volta ao mundo. A rota inicial era Bali, Sumatra, Malásia, Tailândia, Índia, Paquistão, Irã, Turquia e Grécia. Ele não fazia ideia de que estava começando a maior viagem já feita sobre uma Harley. E foi sozinho nos dois primeiros anos.

Kay, a mulher de Peter

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Kay não entrou na viagem como carona: ela é mulher de Peter. Quando ele comprou a Harley, os filhos do casal ainda estavam na escola e Michael cursava o último ano. Ela aprovou o plano, mas ficou em casa até essa fase passar, enquanto o marido rodava sozinho. Em 20 de novembro de 1997 ela encontrou Peter na Grécia para a terceira etapa: 25.727 km e 21 países, o primeiro trecho dos dois juntos. Dali em diante não desceu mais da garupa.

O papel que quase parou tudo

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Vários países só deixam entrar um veículo estrangeiro com o Carnet de Passages, um documento aduaneiro internacional que funciona como passaporte da moto. Quem emite não é governo: são os clubes automobilísticos filiados à FIA, e é o clube do seu país que fica como fiador se você não tirar o veículo de lá. Para o casal, a garantia pedida era 150% do preço da moto — cerca de A$ 36 mil. Índia e Paquistão custavam 350%, ou A$ 84 mil, porque viajantes anteriores vendiam as motos na Ásia e abandonavam o depósito. E não havia seguro: nenhuma seguradora aceitava cobrir a Harley fora da Austrália. Os 15 anos seguintes foram rodados sem apólice nenhuma.

Quase nada de preparação

A moto saiu praticamente de fábrica, e isso era proposital: quanto menos peça especial, mais fácil achar reposição em qualquer canto do mundo. As mudanças foram poucas e todas práticas — um suporte de cozinha em cima do baú, hastes de espelho alongadas em 50 centímetros para enxergar além da bagagem, chapas de aço reforçando os parafusos das malas laterais e um protetor de cárter batido em aço para salvar o motor. Foi com isso que ela entrou na África.

A pior estrada que já viram

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Em novembro de 2000, no Congo, o casal encarou o que Peter descreveu como “a pior estrada que já vimos e a pior que consigo imaginar que ainda permita a passagem de veículos”: valas de dois metros abertas por caminhões na chuva. A correia de transmissão esticou e arrebentou na lama, os protetores de motor amassaram, o garfo entortou e, numa queda, a moto catapultou os dois. Quem resolveu foram os moradores: abriram caminho com enxadas, empurraram a Harley até o seco e cortaram uma árvore em toras para erguer a traseira e trocar a correia.

Fuzis na fronteira

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Duas semanas depois, em 5 de dezembro de 2000, na entrada da República Centro-Africana, militares pararam o casal, carregaram os fuzis na frente deles e começaram a contar: um, dois, três — ou pagavam, ou atirariam. Não havia lei nem recibo por trás daquilo, só extorsão. Peter e Kay pagaram e seguiram. Nas barreiras seguintes, inventaram uma saída: respondiam “Bangui say no pay”, ou seja, “Bangui mandou não pagar”. Bangui é a capital do país, e a frase dava a entender que a ordem vinha do governo central. Nunca veio de ninguém — era blefe. Só que havia mesmo uma campanha oficial contra a corrupção em andamento, e citar a capital constrangia o policial da barreira o bastante para liberar a passagem. Dois anos depois, o susto viria em um lugar bem mais familiar para nós.

O Brasil de barco e de lama

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O casal cruzou o Brasil entre 25 de abril e 8 de junho de 2002, 7.760 km da fronteira norte até Foz do Iguaçu. Boa parte da Amazônia foi feita de barco, com a Harley amarrada em cima de uma embarcação de carga. Para desembarcar, a moto teve que subir uma rampa de tábuas a partir de um atracadouro de lama — e chegou ao asfalto coberta de barro, com o piloto igual. Depois vieram o Parque Nacional de Sete Cidades, uma rede em Lençóis e um encontro de motos em Itaboraí. E aí veio o Rio.

O assalto em Copacabana

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Na noite de 28 de maio de 2002, sentados na areia de Copacabana, foram cercados por três homens. Um perguntou as horas, outro segurou Kay e o terceiro puxou uma faca. Enquanto Peter rolava na areia com o homem armado, levaram a carteira: US$ 25, cartões e a habilitação. Durou cerca de um minuto e ninguém saiu ferido. Um corredor que passava chamou a polícia, o depoimento levou uma hora e o cartão já tinha sido usado numa compra de US$ 300 em menos de meia hora. No dia seguinte eles estavam na estrada de novo.

Etiópia, 2006

Em Adis Abeba, um homem bem vestido passou perto de Kay, arrancou a corrente de ouro do pescoço dela e sumiu na multidão com um comparsa. Não foi violento, mas deixou os dois desconfiados por semanas. Dois dias depois, na ponte do rio Awash, soldados barraram a passagem de motos até Peter mostrar que não existia placa nenhuma avisando aquilo. Ele argumentou e passaram. Negociar virou ferramenta de viagem — e ela ainda seria testada nos lugares mais improváveis do mapa.

O ponto mais baixo do planeta

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Em 10 de abril de 1999 o casal desceu até o Mar Morto pelo lado da Jordânia e nadou ali, a 390 metros abaixo do nível do mar — o ponto mais baixo de terra firme do planeta, e o mais fundo que uma moto consegue chegar. Dias depois voltaram pelo lado de Israel e estranharam o contraste: onde tinham encontrado silêncio, havia cercas de segurança e trânsito de resort. Com mais de 30 graus e o ar pesado daquela profundidade, o corpo pedia água o tempo todo. Oito anos depois eles estariam no extremo oposto.

5.300 metros de altitude

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Em 13 de junho de 2007, no Ladakh, norte da Índia, a Harley chegou ao alto do Taglang La, a 5.300 metros — na conta deles, a segunda estrada mais alta do mundo aberta a veículos. Foram mais de 370 km sem um único posto de combustível no caminho. A Royal Enfield que acompanhava o casal superaqueceu; a Electra Glide, uma moto de estrada pesada feita para asfalto americano, subiu e desceu. Nos dois dias seguintes vieram mais dois passos, de 5.000 e 4.800 metros.

Onde quase ninguém entra

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Fechar o mapa exigiu insistência. Na Coreia do Norte rodaram sob escolta militar e tiveram que cobrir a placa e os adesivos com fita. Nas Maldivas, onde a rede viária inteira tem sete quilômetros, precisaram de uma semana de negociação e receberam a placa 0000 — a primeira emitida no país — para um passeio de uma hora. E na Arábia Saudita, depois de três semanas tentando visto sem sucesso, conheceram um príncipe saudita apaixonado por motos que resolveu tudo na hora: visto de três meses com múltiplas entradas.

15 de outubro de 2008

O último país da lista foi a Nova Zelândia. Eles chegaram em 7 de outubro, mas a moto ficou retida na quarentena — e a regra que o próprio casal criou era clara: só valia se a Harley rodasse, com o motor ligado, dentro de cada país. No dia 15 ela foi liberada, e Peter escreveu que finalmente a moto tinha sido pilotada em todos os países do mundo. Eles também recusaram contar territórios não reconhecidos internacionalmente, como Abecásia e Ossétia do Sul. Eram 193, e eram os 193 da ONU (Organização das Nações Unidas).

540.080 km de motor original

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O motor original passou por duas retíficas na estrada — o topo em Nova York, aos 229 mil km, em 2001, e cilindros e cabeçotes enviados a Brisbane aos 485 mil km, em 2006 — mas o fundo de motor nunca foi aberto. Ele só foi aposentado em agosto de 2009, com 540.080 km. Em toda a viagem a moto precisou de guincho quatro vezes: duas por correia partida, uma por bomba de óleo e uma por problema no comando de válvulas. Em outubro de 2011 o casal encerrou a volta ao mundo com mais de 610 mil km.

Por que eles pararam

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A viagem não terminou por acidente nem por falta de dinheiro. Depois da Nova Zelândia, escreveram que sentiam que estavam “marcando passo”: sem país novo para riscar, seguir rodando por rodar passou a parecer, nas palavras deles, “um pouco hedonista e sem sentido”. E a vida em casa começou a valer mais. As mães dos dois estavam ficando frágeis com a idade, dois netos já tinham nascido e um terceiro viria naquele ano, e o casal tinha 64 hectares de mata a uma hora de Brisbane esperando por eles, com um projeto novo pela frente: devolver aquela terra ao estado natural. A Harley voltou de navio em julho de 2012, e o plano era seguir rodando com ela em casa. Ficou faltando um país: o Sudão do Sul, que nasceu em 2011, depois que eles já tinham fechado a conta.