O presente dos 110 anos
Em junho de 2013, a Harley-Davidson comemorou 110 anos em Roma e levou ao Vaticano um presente inusitado para o papa Francisco: duas motocicletas e uma jaqueta de couro. Com poucos meses no cargo, o argentino conhecido pela vida simples virou dono de duas Harley zero quilômetro que nem eram para ele.
Os tanques eram de Bento XVI
A história começa antes. Em 3 de outubro de 2012, a Harley levou ao Vaticano dois tanques comemorativos dos 110 anos, e quem os abençoou e assinou foi Bento XVI — mas não à mão: o papa estava doente demais para escrever, e o nome dele foi impresso nos dois, por serigrafia. Cada tanque foi montado numa moto: uma ficou no museu da Harley, em Milwaukee; a outra é a Heritage do papa. Quatro meses depois, alegando falta de forças, Bento renunciou.
A Heritage dos 110 anos
A maior das duas é a Heritage Softail Classic, de 1.690 cc (centímetros cúbicos de cilindrada): a mais clássica das Harley de estrada, com para-brisa, para-lamas largos, bolsas laterais de couro com franjas e banco duplo. A do papa veio no visual comemorativo dos 110 anos — bronze e preto envelhecidos, com emblema de bronze no tanque —, edição que a Harley limitou a 1.900 unidades desse modelo. É ela que carrega o tanque assinado por Bento XVI.

A Dyna preta de catálogo
A outra é uma Dyna Super Glide Custom preta, sem nenhum enfeite: motor Twin Cam 96 (o número vem das polegadas cúbicas, ou 1.585 cc), câmbio de seis marchas e os dois amortecedores traseiros à mostra. Sem para-brisa, sem bolsas laterais, sem série especial. Era a Harley grande mais em conta da linha, a mesma que partia de R$ 39.900 no Brasil em 2013. Guarde essa: é dela que a história trata.
Quem entregou as motos
Na quinta-feira, 13 de junho de 2013, as duas motos foram entregues prontas ao papa, no Vaticano, pelas mãos de Willie G. Davidson, neto de um dos fundadores da marca, ao lado do filho Bill. Com elas veio a jaqueta de couro preta dos 110 anos. Nenhuma das duas tinha rodado um metro.
A bênção em São Pedro
Três dias depois, no domingo, 16 de junho, cerca de 1.400 motos ocuparam a Via della Conciliazione, a avenida que leva à basílica. Durante o Angelus, a oração de domingo ao meio-dia, Francisco abençoou as máquinas e seus donos na Praça São Pedro. As duas dele ficaram no Vaticano.
A moto que sobrou
Das duas motos que Francisco ganhou, só uma trazia tanque assinado: a Heritage, com o nome impresso de Bento XVI. A Dyna preta era moto de catálogo, sem assinatura nenhuma — e foi a que sobrou, parada no Vaticano por alguns meses, sem uso e sem qualquer sinal de que o papa fosse subir nela. Foi essa que Francisco decidiu assinar e, logo depois, mandar vender.
A assinatura no tanque
Em novembro de 2013, numa cerimônia no Vaticano, o papa autografou a Dyna. Escreveu à mão, com tinta branca, ao lado da tampa do tanque, uma única palavra: Francesco. Foi esse gesto de dois segundos que transformou uma moto de fábrica em peça de leilão — e a assinatura de próprio punho valeria muito mais que a impressa de Bento XVI no tanque da Heritage.

Ele nunca andou nela
Não há registro de Francisco pilotando a Harley. O homem que abriu mão do carro papal de luxo e recusou o apartamento pontifício não tinha interesse em manter uma moto de 1.585 cc na garagem. Em vez de guardá-la, doou a Dyna à Caritas de Roma, o braço social da Igreja na cidade, com uma instrução simples: leiloar e transformar aquilo em comida e cama.
Leilão no Grand Palais
A Bonhams (casa de leilões inglesa fundada em 1793, uma das maiores do mundo) levou a moto para Paris, para o leilão Les Grandes Marques du Monde — as grandes marcas do mundo —, realizado no Grand Palais, o palácio de exposições da cidade, em 6 de fevereiro de 2014. A estimativa da Bonhams era modesta: de 12 mil a 15 mil euros, o preço de uma Dyna usada. E a moto entrou sem preço mínimo: seria vendida por qualquer valor que o público oferecesse.
Minutos de disputa
Quando a Dyna entrou no salão, o número subiu rápido e não parou mais. Ela foi vendida por 241.500 euros já com as taxas da casa de leilões, cerca de 327 mil dólares na época — mais de quinze vezes o teto da estimativa. O comprador nunca teve o nome revelado; sabe-se apenas que era europeu.
A jaqueta foi junto
Logo em seguida entrou a jaqueta de couro preta que a Harley dera ao papa no mesmo dia, também assinada por ele. Foi arrematada por 57.500 euros, com taxas, por um comprador de fora da Europa. Somadas, moto e jaqueta fizeram quase 300 mil euros numa tarde — dois objetos que, sem a caneta do papa, não valeriam quase nada.
Pra onde foi o dinheiro
Todo o dinheiro das duas peças, quase 300 mil euros, foi para a Caritas de Roma, destinado à reforma do albergue Don Luigi Di Liegro e do refeitório que a instituição mantém junto à estação Termini, onde são servidas refeições a quem vive na rua. A moto que nunca rodou um metro nas mãos do dono fez mais parada num leilão do que faria em qualquer estrada.
A outra moto, um ano depois
Em 5 de fevereiro de 2015, a Bonhams voltou ao Grand Palais com a segunda moto: a Heritage Softail Classic com o tanque de Bento XVI, vendida em favor de uma associação polonesa que cuida de crianças carentes. Saiu por 46 mil euros, quase o dobro do teto da estimativa — e menos de um quinto do que a Dyna alcançou.



