Sem ele, a Harley nunca teria existido.

Milwaukee, dezembro de 1880

William Sylvester Harley nasce numa família de imigrantes ingleses: o pai saiu de Littleport, na Inglaterra, em 1859, e foi trabalhar nas ferrovias nos Estados Unidos. Bairro operário, nada de luxo. Aos 15 anos, enquanto os outros garotos brincavam na rua, Harley já estava com as mãos sujas de graxa na fábrica de bicicletas Meiselbach — aprendendo do jeito mais difícil: desmontando, remontando, errando.

O amigo de infância e uma ideia impossível

Arthur Davidson era amigo de Harley desde criança, e os dois se completavam: Harley era o desenhista e projetista, Arthur era o modelador e torneiro mecânico. Em 1901, trabalhando como desenhista aprendiz na Barth Manufacturing, Harley começou a projetar um motor minúsculo, pensado pra caber num quadro de bicicleta comum sem alterar a estrutura. No papel parecia simples. Na prática, ninguém tinha feito aquilo funcionar direito.

Motor de sucata, sonho gigante

Sem dinheiro pra ferramentas, Harley improvisou. O carburador saiu de uma lata de molho de tomate. A primeira vela de ignição, nas palavras dele, “era maior que a maçaneta de uma porta”. Contaram com a ajuda de Henry Melk, dono de uma oficina no norte de Milwaukee. Mas o motor era fraco demais: não vencia ladeira sozinho e a bicicleta comum não aguentava o peso extra. De volta à prancheta.

A história de William S. Harley

1903: a primeira moto de verdade

Buscando força, Harley aumentou o motor — e não sozinho: teve ajuda de Ole Evinrude, que construía motores a gasolina em Milwaukee e viraria um nome gigante nos motores náuticos. Depois de dois anos, o projeto virou moto de verdade — vendida a Henry Meyer. Dela nasceu a Harley-Davidson.

Faltava teoria

Mesmo com o motor rodando, Harley sentiu o limite: sabia construir na tentativa e erro, mas faltava base técnica. Entrou na Universidade de Wisconsin em 1904 pra estudar engenharia. Curiosamente, a própria universidade mal tinha estrutura pro que ele queria: motores a gasolina eram assunto de uma única matéria optativa, de carga reduzida — e o laboratório quase não tinha motores desse tipo pra estudar. Pra bancar os estudos, foi garçom, desenhista part-time (meio período) em Madison e até construiu equipamentos pro laboratório de Psicologia.

1907: de volta com diploma

No último ano, foi escolhido para um grupo de alunos que passou onze dias testando uma turbina a vapor nova da Commonwealth Edison, em Chicago. Em junho de 1907 formou-se engenheiro mecânico e voltou pra Milwaukee. O negócio que ele e os Davidson tinham montado no quintal já empregava quinze pessoas.

17 de setembro de 1907

Nesse dia a Harley-Davidson Motor Company foi oficialmente incorporada, com quatro sócios: Walter Davidson como presidente, Arthur Davidson no comercial, William A. Davidson na fábrica e William Harley como engenheiro-chefe e tesoureiro. Na divisão das ações, Harley pegou uma fatia menor e parte em dinheiro — pra pagar o próprio diploma.

A história de William S. Harley

1909: nasce o V-Twin

Com Harley como engenheiro-chefe, a Harley-Davidson lançou em 1909 seu primeiro motor bicilíndrico em V — o V-Twin, dois cilindros num ângulo fechado. Foi retirado de linha no fim do mesmo ano e voltou redesenhado em 1911, agora com válvulas de admissão comandadas mecanicamente. Era o desenho que definiria o som e a alma da Harley-Davidson pelo século seguinte.

Engenheiro e piloto de prova

Harley não ficava só atrás da prancheta: correu muitas provas de resistência testando os próprios projetos. Era um piloto ávido — e foi por andar de verdade que sabia o que o motociclista queria.

1910: casa cheia

Em 1910, Harley se casou com Anna Jachthuber. Tiveram dois meninos e uma menina, e a família se firmou em Milwaukee. Enquanto a fábrica crescia lá fora, dentro de casa ele era só um pai comum — e o trabalho na prancheta mal tinha começado.

A embreagem e o Knucklehead

Como engenheiro-chefe e tesoureiro por mais de três décadas, Harley é creditado com a invenção da primeira embreagem de moto de verdade, ainda nos primeiros anos da marca. Bem depois, em 1936, assinaria o primeiro Big Twin da casa: o lendário “Knucklehead”, da EL.

O homem atrás da prancheta

Serviu quase duas décadas no Comitê de Competição da AMA e não perdia as corridas de Daytona. Fora isso, caçava, pescava e fotografava vida selvagem. Mas nenhuma ideia grande nasce sozinha — do outro lado da placa tinha outro nome. Um dia desses eu conto a história dele: Arthur Davidson.