Quem foi Ray Weishaar

Antes de existir qualquer porco, existiu um piloto. Ray Weishaar nasceu em 1890, em Oklahoma, e cresceu em Wichita, no Kansas. Perdeu o pai aos 9 anos e precisou trabalhar cedo pra ajudar a mãe — conseguiu emprego na Bell Telephone ainda adolescente. Foi juntando dinheiro até comprar sua primeira moto, na época o meio de transporte mais barato que existia. Ele não sabia, mas aquela compra mudaria a história do motociclismo americano.

O “Ciclone do Kansas”

Entre 1908 e 1910, Weishaar começou a correr em pistas de meia milha nas feiras do interior do Kansas. Ganhou o apelido de “Ciclone do Kansas” e venceu o campeonato estadual duas vezes seguidas. Em 1914, entrou pro time oficial de corrida da Harley-Davidson — e sua vida mudou de vez.

O time mais temido das pistas

Weishaar se juntou à “Wrecking Crew” (“Turma da Destruição”), o time oficial de corrida da Harley-Davidson nos anos 1910 e 1920, apelidado assim pelo estilo agressivo (e literalmente destrutivo) de pilotar. Em 1916, terminou em 3º lugar em Dodge City e venceu o campeonato de 100 milhas da FAM (Federação Americana de Motociclismo, o órgão que organizava as corridas antes da atual AMA) em Detroit. Nesse mesmo ano, a Harley-Davidson lhe ofereceu uma concessionária própria — ou seja, ele passou a ser dono de uma loja autorizada a vender e consertar motos da marca. Ele tocou o negócio por três anos, deixando as corridas de lado até voltar às pistas em 1919.

Fast Johnnie - A história do porquinho da Harley

A guerra interrompe tudo

Em 1917, os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra Mundial, e todas as corridas foram suspensas — a maior parte da produção de motos passou a atender contratos militares. A Wrecking Crew ficou parada por anos, esperando o mundo voltar ao normal.

7 de setembro de 1920

Weishaar voltou às pistas em 1919, quando dois períodos coincidiram: o fim do seu contrato de três anos na concessionária e o fim da Primeira Guerra Mundial, que já tinha interrompido as corridas em todo o país. A Wrecking Crew também retomou as atividades, dominando as pistas de terra e madeira nos anos 1920. Foi nesse contexto que Weishaar chegou a Marion, Indiana, pra disputar a Cornfield Classic — uma prova de 200 milhas que exigia dias de preparação. Enquanto testava a moto e ajustava o equipamento, aconteceu algo que ninguém esperava.

Um porquinho de seis semanas

Durante os dias de treino em Marion, Weishaar comprou de um fazendeiro local um leitão de apenas seis semanas de vida. Deu ao animal seu próprio sobrenome: batizou o porquinho de “Johnnie Duroc Weishaar” — Duroc é uma raça suína avermelhada, exatamente a cor do bichinho. Fotos da época mostram Weishaar oferecendo um gole de Coca-Cola pro porco antes da corrida.

A vitória e o abraço

Assim que cruzou a linha de chegada e venceu a corrida, Weishaar pediu que trouxessem Johnnie até ele. Colocou o porquinho em cima do tanque de combustível da moto e deu uma volta completa na pista, exibindo o animal ao lado dele, como se comemorassem juntos. Foi esse gesto — a imagem do piloto e do porco andando juntos na volta da vitória — que virou notícia e tornou Johnnie famoso da noite pro dia.

Johnnie vira “Fast Johnnie”

A prática de correr com o porquinho em cima do tanque pegou tanto que rendeu dois apelidos ao mesmo tempo: a Harley virou “hog”, e o próprio Johnnie ganhou o apelido de “Fast Johnnie” — Johnnie o Veloz. Décadas depois, os dois nomes seguiriam vivos: um batizando qualquer Harley-Davidson, o outro batizando uma coleção real de motos.

Fast Johnnie - A história do porquinho da Harley

Outro apelido

Jornalistas presentes começaram a chamar os pilotos de “Harley Hogs” — um trocadilho com o porco literal e com o fato da Harley estar “hogging” (dominando, monopolizando) as vitórias contra rivais como a Indian e a Excelsior. Na época, “hog” virou apelido informal pra qualquer Harley-Davidson. Décadas depois, a marca oficializaria a palavra de vez, criando o Harley Owners Group — o clube de proprietários da marca, hoje conhecido pela sigla H.O.G.

Johnnie não estava sozinho

A Wrecking Crew tinha outros bichos de estimação: um coiote chamado Bambino apareceu em Dodge City, em 1920. No ano seguinte, um piloto correu com um coelho preto de mascote, enquanto seu colega de equipe tinha uma tartaruga — apelidados de “a lebre e a tartaruga”. Teve até um macaco de estimação que ia de carona na moto pro trabalho. Mas foi o porco que ganhou o jogo da história.

O fim trágico de Weishaar

Em 1923, Weishaar assinou contrato pra correr no recém-inaugurado Ascot Speedway, em Los Angeles. No dia 13 de abril de 1924, disputava a liderança com Gene Walker quando outro piloto, Johnny Seymour, ultrapassou os dois e jogou a moto de Weishaar numa derrapagem violenta. Ele bateu direto na cerca de madeira e morreu no local, aos 33 anos — no auge da carreira que ele mesmo ajudara a construir.

1983: o apelido vira oficial

Depois de décadas de motociclistas usando “hog” informalmente, a Harley-Davidson decidiu abraçar de vez o apelido: em 1983 criou o H.O.G. — Harley Owners Group, o clube oficial de proprietários da marca. Hoje “HOG” também é o código da empresa na bolsa de valores de Nova York.

Fast Johnnie vive nas motos de hoje

A história não ficou só no passado: a Harley-Davidson lançou a linha oficial “Fast Johnnie”, com o porco pintado direto no tanque de combustível. A coleção está disponível hoje em modelos de verdade — Road Glide ST, Street Glide ST e Low Rider ST, todos com motor Milwaukee-Eight 117. Tem também logotipo exclusivo no para-lama traseiro e emblema Bar & Shield especial.

De um leitão de fazenda a símbolo mundial

Mais de um século depois daquela volta da vitória em Marion, quase todo mundo que chama uma Harley de “hog” não faz ideia de que está homenageando um leitão de seis semanas de vida e o piloto que morreu jovem, correndo pelo que amava. Da próxima vez que você ouvir esse apelido, agora você sabe a história por trás dele — e o nome certo pra contar.