Você no comando de uma chopper

19 de maio de 1995. A LucasArts lança Full Throttle e faz algo que nenhum jogo tinha feito: te dá o guidão de uma chopper e a liderança dos Polecats (gangue de motoqueiros do jogo liderada por Ben). Sem espada, sem nave. Só estrada, jaqueta de couro e uma gangue que responde a você.

A ideia nasceu num bar de motoqueiros

Tim Schafer ouviu histórias em um bar de bikers no Alasca e travou na comparação: motoqueiro é tipo pirata. Um mundo com regras próprias, código próprio, e uma janela que quase ninguém consegue olhar dentro. Ele decidiu abrir essa janela.

A LucasArts detestou o projeto

Schafer levou cinco ideias para a mesa. A de motos foi rejeitada na hora. Ele reescreveu, voltou e prometeu uma coisa que a empresa nunca tinha ouvido: um herói que o homem comum ia querer ser. Aprovaram. Foi o primeiro projeto que ele liderou sozinho.

Full Throttle — o jogo que virou retrato da cultura biker

Ben não era o herói atrapalhado de sempre

A LucasArts vivia de protagonistas desengonçados. Ben veio do Mad Max e do ronin de Yojimbo, do Kurosawa: calado, capaz, sem paciência para conversa. Roy Conrad dublou ele sem forçar o durão — e é exatamente por isso que funcionou.

A saga do Ben (a história do jogo)

Ben lidera os Polecats. Adrian Ripburger, vice da Corley Motors, quer tomar a empresa e trocar as motos por minivans. Mata o velho Malcolm Corley e joga a culpa nos Polecats. Ben vira fugitivo e corre atrás da prova ao lado de Maureen, filha que Malcolm nunca assumiu. Ela herda a fábrica e ele volta pra estrada.

Mark Hamill era o vilão

Ripburger tem a voz de Mark Hamill. E ele não estava sozinho: Full Throttle foi o primeiro jogo de computador com elenco majoritariamente sindicalizado, ator profissional de verdade. Hamilton Camp, Kath Soucie, Maurice LaMarche, Tress MacNeille. Videogame virou produção.

O som não era de computador

A LucasArts queria rock de verdade na trilha, não som sintetizado, e contratou uma banda só para isso: os The Gone Jackals, de São Francisco. As faixas do disco Bone to Pick viraram a trilha do jogo, e o vocalista Keith Karloff ainda ajudou a compor faixas originais.

Full Throttle — o jogo que virou retrato da cultura biker

Sombra, silhueta e uma caveira no cursor

Peter Chan desenhou tudo olhando para o Hellboy do Mike Mignola: fundo mínimo, silhueta forte, sombra pesada. A interface sumiu da tela — no lugar da lista de verbos, uma caveira que abria os comandos onde o seu olho já estava. Nada tirava você da estrada.

Um ano e meio e US$ 1,5 milhão

Foram um ano e meio de trabalho, cerca de 30 pessoas e um investimento de US$ 1,5 milhão — a primeira aventura da LucasArts a custar mais de um milhão de dólares. Schafer achava aquilo uma loucura para a época. E mesmo assim uma parte grande do jogo foi cortada antes do lançamento.

Um milhão de cópias e uma reclamação

A meta da casa era 100 mil cópias. Full Throttle vendeu mais de um milhão e virou o maior sucesso de aventura da LucasArts. A crítica só bateu num ponto: oito horas de jogo contra as quarenta da concorrência. Três décadas depois, isso deixou de ser defeito.

Duas sequências que nunca chegaram

Full Throttle 2 morreu em 2000 com 25% das fases prontas. Hell on Wheels caiu em 2003, já sem Schafer e depois da morte de Roy Conrad, a voz do Ben. Em 2021 o diretor Duncan Jones escreveu um roteiro de cinema por conta própria e publicou de graça, torcendo para alguém filmar. Schafer nunca quis continuar: para ele a história do Ben já estava inteira.

Dá pra jogar AGORA

Em 2017 a Double Fine, estúdio do próprio Schafer, relançou o Full Throttle Remastered: arte redesenhada à mão em 4K, áudio refeito e um botão que troca entre o visual de 1995 e o novo no meio da partida. Está no Steam e no GOG para PC e Mac, no PlayStation 4, no Xbox One e no iPhone e iPad — só não saiu para Switch nem Android. É o retrato mais honesto que um videogame já fez de um mundo sobre duas rodas, e ele continua na estrada.