A ideia

Foi Regina Célia Alves Diniz, diretora da Ossel Assistência em São Caetano do Sul (SP), quem deu o primeiro passo. Ela queria uma despedida à altura de quem viveu o motociclismo como filosofia de vida e encomendou o projeto à Carros Funerários Procópio, de Cianorte (PR). A Procópio foi além do pedido: chegou com um triciclo funerário em formato limusine, inédito no Brasil. A Ossel — fundada em 1987 em Sorocaba e hoje a maior funerária do estado de São Paulo — aceitou na hora.

A moto escolhida

O ponto de partida foi uma Harley-Davidson Ultra Limited FLHTK 2017, com apenas 10 mil quilômetros rodados — praticamente zero. Motor Milwaukee-Eight 107 de 1.750 cc, touring pesada feita para longas distâncias. O tipo exato de máquina que um motociclista de verdade escolheria para a própria viagem. A base chegou à Barracuda Motorcycles, em Marialva (PR), para começar a transformação.

De Harley Davidson até os seus últimos metros

De moto para triciclo

A primeira grande mudança foi estrutural: a Harley saiu de duas rodas e virou triciclo. O conjunto traseiro deu lugar a um chassi de triciclo importado dos Estados Unidos — não existe peça equivalente no mercado brasileiro — e o quadro foi reforçado para suportar o módulo funerário. Foram meses de desenvolvimento antes do primeiro corte.

O compartimento

O módulo traseiro foi construído para acomodar o caixão com acabamento em pintura black piano, iluminação LED e neon, peças em acrílico e mesa de inox no interior. Por fora: rack no teto para coroas de flores, alto-falantes para música durante o cortejo e iluminação especial. A ideia era criar algo digno o suficiente para ser o último veículo de um motociclista antes do cemitério.

Quanto custa hoje

A Ossel investiu R$ 500 mil na transformação — fora a moto, avaliada em torno de R$ 76 mil na FIPE. Quem quiser um projeto igual, pode contratar a Procópio direto: o investimento é de R$ 350 mil a R$ 400 mil sem a moto. A moto cortejo já está na frota de São Caetano do Sul por R$ 500 a hora, isolado ou dentro do pacote funerário. O público são famílias de motociclistas que não querem deixar a moto de fora nem no último adeus.

De Harley Davidson até os seus últimos metros

Quem fez

A Carros Funerários Procópio, de Cianorte (PR), é referência nacional em veículos de alto padrão para o setor funerário. A mecânica ficou com a Barracuda Motorcycles, de Marialva (PR), especializada em Harley-Davidson: uma domina a estrutura funerária, a outra conhece cada detalhe da FLHTK. Para Kennedy Silva, diretor comercial da Procópio, o projeto abre uma frente de negócios inteira para o setor.

O lançamento na Exponaf

A estreia aconteceu na Exponaf 2025, a maior feira do setor funerário do Brasil, realizada entre 21 e 23 de maio no Expo Dom Pedro, em Campinas (SP). Evento fechado para profissionais e empresários do setor. Quando a moto cortejo entrou no salão, o impacto foi imediato: ninguém havia visto nada assim no Brasil. O que era curiosidade no início virou o assunto mais comentado do setor no fim de semana.

Não é só no Brasil

Nos Estados Unidos, a Harley-Hearse não é novidade: existem versões com sidecar, carretinhas acopladas e triciclos adaptados circulando em cortejos há anos. O que a Ossel e a Procópio fizeram foi trazer esse conceito para o Brasil com acabamento e personalização que rivaliza com os melhores exemplares americanos — feito aqui, por empresas brasileiras, com mão de obra especializada local.

O setor que mudou

O mercado funerário brasileiro movimenta cerca de R$ 13 bilhões por ano e reúne mais de 11 mil empresas, segundo o Sincep. Num setor historicamente conservador, a moto cortejo é uma declaração de que as cerimônias estão mudando. “É uma opção perfeita para as famílias que desejam prestar uma homenagem única e especial, respeitando a paixão de quem sempre encontrou na estrada o seu caminho”, diz Regina Célia. Personalização já não é luxo — é expectativa. A Harley que nunca vai parar num posto de gasolina virou símbolo de que o último adeus pode ser tão individual quanto a vida de quem partiu.