Antes da Transamazônica, 18 mil km até o desafio
João Gonçalves Filho, o catarinense conhecido como “Gau”, tinha 29 anos quando decidiu fazer a maior viagem de moto já tentada no Brasil. Em maio de 1976, partiu de São Paulo numa Harley-Davidson 1200, sem rota fixa e sem patrocínio, só com vontade de rodar o país inteiro. Passou por Rio de Janeiro, Bahia, Recife, Fortaleza, Teresina e São Luís, somando quedas, amizades e histórias em cada parada.
Quando chegou a Belém, já tinha 18 mil km na bagagem — e foi assim, numa redação de jornal, que a viagem ganhou um novo propósito. Um repórter publicou uma matéria sobre a travessia dele pelo Brasil, e o órgão federal responsável pela recém-aberta Transamazônica não gostou do que Gau disse sobre as condições da estrada. A resposta dele foi imediata: se garantissem gasolina ao longo do trajeto, ele seria o primeiro motociclista da história a cruzar a rodovia inteira, de ponta a ponta. Aceito o desafio, vendeu pertences pessoais por 500 cruzeiros só para bancar o combustível, e partiu de Belém com apenas 162 cruzeiros no bolso e duas cartas de apresentação do órgão rodoviário. Estava criado o maior desafio da vida dele.

12 de junho de 1976: a Harley entra na selva
Às 14h27 do dia 12 de junho de 1976, sob a placa que marcava o início da BR-230, a Harley-Davidson 1200 de Gau saiu jogando terra e cascalho pela primeira vez na Transamazônica, rumo a Marabá, Altamira e Itaituba. A euforia durou pouco: ele não tinha rodado nem 20 km quando sofreu a primeira queda. Era só o começo.
A estrada, recém-aberta na floresta, alternava trechos de piçarra solta, poças profundas de barro e pontes improvisadas — em muitos pontos, apenas troncos de madeira amarrados sobre os rios, sem nenhuma estrutura de sustentação real. Sem posto de gasolina nem oficina por centenas de quilômetros, cada pane era resolvida na base da improvisação, e cada balsa quebrada significava horas — às vezes dias — de espera no meio do nada. Gau seguia sozinho, sem rádio, sem GPS e sem qualquer forma de pedir socorro caso algo desse errado.
Pneu de jipe, ouro em pó e a noite da onça
Sem um pneu sobressalente compatível com a Harley, Gau chegou a rodar centenas de quilômetros com um pneu de jipe improvisado, adaptado na marra para aguentar o peso da moto carregada. Em Jacareacanga, no meio do garimpo amazônico, um garimpeiro derramou mais de 5 kg de ouro puro sobre uma mesa só para mostrar a ele o que a região produzia.
Em Itaituba, foi recebido por um motociclista local que o hospedou e serviu um jantar de paca à milanesa e mutum — “o melhor jantar de toda a viagem”, segundo o próprio Gau contaria depois. Mas o momento mais tenso da travessia ainda estava por vir. Numa noite, sozinho, com um pneu furado bem no meio do mato, ele ouviu o rugido de uma onça — e, segundos depois, outro rugido, vindo de uma direção diferente. Era época de acasalamento, quando as onças se movem em pares ou pequenos grupos. Sem tempo a perder, Gau acendeu uma fogueira, jogou gasolina no fogo para afugentar os animais, amarrou a moto às pressas e saiu andando a 40 km/h pela estrada completamente escura, com os pés arrastando no chão para se equilibrar. Faltava pouco para o fim da provação.

23 de junho: Enfim, Manaus
Depois de atravessar a última balsa e finalmente pisar no asfalto recém-inaugurado da rodovia Manaus-Porto Velho, Gau chegou a Manaus faminto, exausto e praticamente sem dinheiro. A travessia toda — de Belém a Manaus, pela Transamazônica — durou 4 meses e 4 dias, com 8 quedas registradas e incontáveis imprevistos ao longo do caminho. No total, somando a estrada e o trecho final feito de barco pelo Rio Amazonas, Gau percorreu 23.285 quilômetros — um número que até hoje é lembrado como uma das maiores viagens de moto já realizadas inteiramente dentro do território brasileiro. A façanha lhe rendeu menção no Guinness Book e o apelido carinhoso de “pai dos aventureiros” do motociclismo nacional. Mas, para Gau, aquela não seria a última vez que a Transamazônica cruzaria o caminho dele.
50 anos depois, ele refaz o mesmo caminho
Em 2026, exatos 50 anos após aquela primeira travessia, Gau voltou a Lábrea, no Amazonas, para reviver o feito que o transformou em lenda. Dessa vez, ele não está sozinho: 127 motociclistas se inscreveram para percorrer com ele o mesmo trajeto até Cabedelo, na Paraíba, dentro do 1º Motofest Lábrea, evento que contou com apoio direto do prefeito da cidade e da equipe técnica local. Em entrevista ao vivo no marco final da rodovia, emocionado, Gau resumiu o momento: “Quero agradecer a Deus por ter me dado mais 50 anos de vida para refazer o mesmo caminho, depois de 50 anos. É uma bodas de ouro com a estrada.” Pai, avô e bisavô, ele prova que a estrada que abriu em 1976 nunca deixou de fazer parte da vida dele — e que, meio século depois, a aventura ainda está longe de terminar.
Uma história que ainda está sendo escrita
Enquanto este texto é escrito, Gau segue rodando pela Transamazônica mais uma vez, cumprindo quilômetro por quilômetro do mesmo trajeto que abriu há 50 anos. A estrada mudou, o Brasil mudou, mas a vontade dele de seguir em frente continua exatamente a mesma de 1976. Resta agora torcer e aguardar os próximos capítulos dessa nova jornada — que, meio século depois, ainda está sendo construída, um quilômetro de cada vez.


