Uma moto usada e um plano grande demais

Em 11 de julho de 2019, o britânico Jack Groves, 22 anos, saiu de casa para tentar virar a pessoa mais jovem a dar a volta ao mundo de moto. Não tinha equipe, patrocínio de fábrica nem uma trail de 1.200 cilindradas: tinha uma Royal Enfield Himalayan comprada de segunda mão e uma habilitação A2, categoria que no Reino Unido limita o piloto a motos de até 35 kW (cerca de 47 cv). A moto que cabia na carteira dele era exatamente essa.

O que é a Himalayan

A Himalayan é a trail de entrada da Royal Enfield, marca indiana com fábrica em Chennai. Motor de um cilindro só, 411 cm³, cerca de 24 cv, 32 Nm de torque e quase 200 kg com o tanque cheio. Ela não corre: cruza tranquila entre 100 e 110 km/h e pronto. O trunfo é outro — mecânica simples, peça barata e a capacidade de ser consertada em qualquer oficina de beira de estrada do mundo. Era essa a aposta de Jack. E ela quase acabou no primeiro dia.

O primeiro dia terminou no hospital

Ainda na Inglaterra, a caminho de Dover — o porto de onde ele embarcaria para o continente —, Jack capotou a moto e foi parar no hospital no mesmo dia da largada. Saiu de lá coberto de ralados, sem nenhuma fratura, e a moto também escapou inteira. Com menos de 24 horas de viagem, ninguém julgaria se ele desistisse ali. Ele remontou e seguiu.

Do Reino Unido à Austrália

França, Alpes, Áustria, Eslovênia, Bálcãs, Grécia, Turquia, Geórgia e Azerbaijão. Depois a travessia do mar Cáspio, o Tajiquistão, o Quirguistão e a Pamir Highway — estrada que passa dos 4.600 metros, onde o motor perde força e sobra pouco ar para todo mundo. Em seguida China, Laos, Tailândia, Malásia e um voo até a Austrália.

A Austrália pegando fogo

Jack chegou no verão da Black Summer, a temporada de incêndios de 2019 e 2020 que cobriu Sydney de fumaça. No meio disso encarou o Nullarbor e a 90 Mile Straight: 146,6 km sem uma única curva. É nesse tipo de lugar que moto simples vira vantagem — tem pouca coisa para dar defeito.

A corrida até a fronteira

Da Austrália, Jack embarcou para a América do Sul. Em 14 de março de 2020 ele acordou em La Paz, na Bolívia, com a cidade em clima de pânico por causa da Covid-19. Montou na Himalayan e correu para a fronteira do Peru naquela mesma manhã. Passou. Na mesma noite o Peru fechou as fronteiras e decretou um dos confinamentos mais duros do mundo.

Nove meses parado em Cusco

Foram 255 dias em Cusco, a 3.400 metros de altitude, com a moto guardada. Logo no começo, em abril, ele pegou Covid-19 naquela altitude, sozinho e longe de casa. A embaixada britânica organizou voos de repatriação e ele recusou: aceitar significava abandonar a moto no Peru e enterrar o recorde.

Ele aprendeu espanhol

Em vez de esperar, Jack fez do tempo parado parte da viagem: aprendeu espanhol, virou figura conhecida na cidade e, quando as regras foram afrouxando, foi conhecer o Parque Nacional do Manu, na Amazônia peruana, e o maciço do Ausangate, na cordilheira.

Machu Picchu vazio

Quando o Peru reabriu o turismo, no fim de 2020, Machu Picchu voltou com um número mínimo de visitantes por dia. Jack foi um dos primeiros a subir a Trilha Inca, um dos primeiros no trem e caminhou pelas ruínas praticamente sozinho — a cena que ninguém mais vê ali desde que o lugar virou destino de massa.

A saída no dia de Natal

Em 25 de dezembro de 2020, Jack finalmente conseguiu deixar o Peru e voltar a rodar. Subiu o continente rumo ao norte, cruzou a América Central e o México e depois atravessou o Atlântico para fechar o círculo pela Espanha.

O círculo fechado

Ele voltou ao Reino Unido em 3 de junho de 2021, com 23 anos, cerca de 30 países e mais de 50 mil km rodados — tudo na mesma Himalayan de segunda mão. A viagem, planejada para durar um ano, levou quase dois. Oito meses e meio dela foram parados no Peru.

O recorde não homologado

Jack anunciou a marca de motociclista mais jovem a dar a volta ao mundo, mas o Guinness World Records exige critérios rígidos de distância e rota, e a homologação seguia em verificação meses depois. Até hoje o site oficial do Guinness lista outro britânico como recordista: Kane Avellano, que fechou a volta ao mundo em 19 de janeiro de 2017, com 45.161 km em 36 países.

O que a Himalayan provou

No fim, o recorde é o detalhe menos interessante da história. Um rapaz de 22 anos, com habilitação limitada e uma moto usada de 411 cilindradas, atravessou o Pamir, o deserto australiano e uma pandemia inteira sem trocar de máquina. Se você está esperando ter a moto certa para viajar, ela provavelmente já está na sua garagem.